Molho Negro

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Bio

O tempo e a maturidade são os maiores inimigos do rock. É difícil
envelhecer num ramo movido às crises existenciais que precedem a vida
adulta. Como me disse certa vez um conhecido rockstar brasileiro: "eu
comecei a me achar meio ridículo cantando sobre temas 'juvenis' com
apartamento, grana no banco e carro na garagem".

Mesmo sem grana, sem apartamento e sem as toalhas brancas no camarim o
Molho Negro, já neste segundo disco, coloca em xeque a sua perspectiva
artística e a sua visão de mundo. E deu um passo necessário para
seguir em frente sem se tornar uma caricatura de si mesmo. A angústia
e a raiva continuam, mas surgem de outros questionamentos e percorrem
novos caminhos. Sai a preocupação de pegar uma menina na festinha ou
de estar em dia com "as novas bandas da moda" e entra o choque
absoluto de viver em um país brutal e desigual, em um tempo e espaço
marcados por egoísmo, violência, consumismo e darwinismo social.

É como se Travis Bickle, o angustiado motorista de Taxi Driver,
largasse o carro no acostamento e saísse para comprar uma guitarra na
loja de penhores mais próxima. Se Travis era um termômetro emocional
para os problemas da Nova Iorque dos anos 1970, o Molho Negro cumpre a
mesma função no Brasil de 2017. O choque e o poder de observação são
os mesmos. Não trancado em um táxi com uma arma na mão, mas em um
estúdio caseiro gravando um track de guitarra.

Mas o rock, esse estilo gregário por natureza, se apresenta aqui como
uma saída e não como um fim. Essa possibilidade de redenção pessoal e
de construção coletiva muitas vezes atrapalhada pela noção, em voga no
momento, de que a música pop é escapismo adolescente e não pode ser
tratada como nada mais que isso. Pelo contrário.  "Não é nada disso
que você pensou" sugere que é possível essa conciliação. "Classe Média
Loser", "SUV", "Mainstream" e "Ansioso, Deprimido, Entediado" são
alguns dos mini-manifestos surgidos dessa capacidade de observar a
realidade de um país cada vez mais sombrio e sem perspectivas.

A mudança é temática e também sonora. Uma engenharia de som adulta e
obscura, que tangencia o clima de tensão social que dá o tom dessa
nova fase do Molho Negro. O recado é direto: a violência nos espreita
e viver é um perigo. Mas tempos perigosos podem ser, também,
combustível para a criatividade. A relevância está em saber o que tem
que ser queimado.

Vladmir Cunha